Data da Publicação: 01/02/2026
Tempo de leitura: 7 minutos
Autor: PASCOM
Situada exatos 40 dias após o Natal, esta festa encerra liturgicamente as celebrações da Infância de Cristo e serve como uma “ponte” misteriosa entre a alegria de Belém e a dor do Calvário. Mas, o que exatamente celebramos neste dia? Por que há bênção de velas? Qual o papel da Virgem Maria?
No dia 2 de fevereiro, a Igreja Católica celebra uma das festas mais antigas e ricas em simbolismo do ano litúrgico: a Apresentação do Senhor.
Para compreender o gesto da Sagrada Família, precisamos olhar para a Lei de Moisés (Antigo Testamento), que prescrevia dois rituais distintos para o nascimento de um filho primogênito:
A Purificação da Mãe (Levítico 12): A mulher judia, após dar à luz um menino, devia aguardar 40 dias de resguardo. Ao final, apresentava-se no Templo para um ritual de purificação legal (não moral), oferecendo um cordeiro ou, se fosse pobre, um par de rolas ou dois pombinhos.
O Resgate do Primogênito (Êxodo 13): Todo primogênito homem “pertencia ao Senhor”, em memória da noite em que o anjo poupou os filhos de Israel no Egito. Os pais deviam ir ao Templo para “resgatar” o menino mediante uma oferta, reconhecendo que a vida daquela criança era dom de Deus.
São Lucas (Lc 2, 22-40) narra que Maria e José, fiéis observantes da Lei, subiram a Jerusalém para cumprir estes preceitos.
A Igreja ensina que nem Jesus, nem Maria precisavam se submeter a essa lei.
Jesus é o próprio Deus, o autor da Lei e o Templo verdadeiro; Ele não precisa ser consagrado, pois é a fonte de toda santidade.
Maria é a Imaculada Conceição, Virgem puríssima que concebeu por obra do Espírito Santo; nela não havia mancha legal ou moral.
Por que foram então? Por humildade e obediência. Eles quiseram se fazer solidários ao povo de Israel e a toda a humanidade, cumprindo toda a justiça e ensinando-nos que a verdadeira liberdade passa pela obediência a Deus.
Historicamente, até a reforma do calendário litúrgico em 1969 (após o Concílio Vaticano II), esta festa era conhecida como a Purificação da Bem-Aventurada Virgem Maria. O foco estava na conclusão do resguardo de Nossa Senhora.
A reforma litúrgica, buscando voltar às fontes bíblicas, renomeou a data para Apresentação do Senhor. Isso não diminui a importância de Maria, mas coloca o foco no lugar certo: Cristo é o centro. É o Senhor que entra em Seu Templo. Como ensinou o Papa Paulo VI na exortação Marialis Cultus, esta é uma “festa conjunta” do Filho e da Mãe.
Nas Igrejas do Oriente (Católicas e Ortodoxas), esta festa recebe o nome grego de Hypapante, que significa “O Encontro”.
Esta é a chave de leitura mais profunda da festa:
Simeão e Ana representam o Antigo Testamento (a Lei e os Profetas). Eles são a imagem da longa espera de Israel, cheia de penitência e oração.
Jesus e Maria trazem a novidade do Novo Testamento.
Quando o velho Simeão toma o Menino Jesus nos braços, o Antigo e o Novo Testamento se abraçam. A promessa se cumpre. A espera acabou. Deus finalmente entrou em Sua casa e encontrou Seu povo fiel.
O Evangelho destaca dois momentos cruciais nas palavras do profeta Simeão:
Simeão chama Jesus de “Luz para iluminar as nações e glória de teu povo, Israel” (Lc 2,32). Daqui nasce a tradição da Bênção das Velas e a procissão das luzes. Por isso, a festa é popularmente chamada de Nossa Senhora das Candeias ou da Candelária. As velas acesas representam Cristo, a luz que não se apaga, e nossa fé que deve brilhar no mundo.
A festa não é apenas romântica; ela é dramática. Simeão profetiza a Maria:
“Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos… e quanto a ti, uma espada te transpassará a alma.” (Lc 2, 34-35)
Neste dia, a sombra da Cruz aparece pela primeira vez na vida de Jesus. Maria descobre que sua maternidade será um martírio interior. Ao oferecer o Filho no Templo agora, ela está se preparando para oferecê-Lo no Calvário depois. Ela é a Mãe das Dores que aceita, com um “sim” renovado, o plano de salvação.
Em 1997, o Papa São João Paulo II instituiu que, na Festa da Apresentação, fosse celebrado também o Dia da Vida Consagrada.
A conexão é perfeita: Assim como Jesus foi consagrado ao Pai no Templo, pertencendo exclusivamente a Ele, os religiosos e religiosas (freiras, frades, monges, eremitas) consagram suas vidas inteiramente a Deus, renunciando aos bens, aos prazeres e à própria vontade (votos de pobreza, castidade e obediência) para serem sinais vivos do Céu na Terra.
A Festa da Apresentação do Senhor nos convida a três atitudes espirituais:
A Oferta de Si Mesmo: Não basta acender uma vela; precisamos nos tornar luz. Devemos nos apresentar a Deus diariamente, oferecendo nosso trabalho, família e cansaço.
A Perseverança: Olhando para Simeão e Ana, aprendemos que Deus nunca falha, mesmo que a espera seja longa.
A Purificação: Embora batizados, precisamos purificar nossa visão para reconhecer Jesus nos “pequenos” e pobres, assim como Simeão reconheceu o Messias num bebê frágil no colo de uma mãe simples.
Oração: Deus eterno e todo-poderoso, ouvi as nossas súplicas: e assim como o vosso Filho único, revestido da nossa humanidade, foi hoje apresentado no templo, fazei que nos apresentemos diante de vós com os corações purificados. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.