A Quaresma é o tempo litúrgico de conversão que marca a Igreja para celebrar a Páscoa. Durante esses 40 dias, os fiéis são chamados a três práticas fundamentais: a oração, a esmola e o jejum.
Abaixo, apresentamos uma explanação detalhada em formato de perguntas e respostas para compreender a profundidade espiritual e as normas práticas desta disciplina.
Mais, o que é o jejum na Quaresma?
O jejum é uma prática penitencial que consiste na privação voluntária de alimentos. Não se trata apenas de “passar fome” ou fazer dieta, mas de uma disciplina espiritual. O objetivo é dominar os instintos, elevar a mente a Deus e expressar a fome espiritual que temos do Senhor. Na Igreja Católica, o jejum é um sinal de humildade e uma forma de unir-se ao sacrifício de Cristo.
Jesus e o jejum no Novo Testamento
Jesus não apenas jejuou, mas ensinou sobre como fazê-lo.
- O Exemplo: Antes de iniciar seu ministério público, Jesus retirou-se ao deserto e jejuou por 40 dias e 40 noites (Mateus 4, 1-2). Isso mostra que o jejum é uma arma espiritual de preparação e combate às tentações.
- O Ensinamento: No Sermão da Montanha, Jesus instrui: “Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio como os hipócritas… Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que estás jejuando, mas apenas teu Pai, que está lá no segredo” (Mateus 6, 16-18). O jejum cristão deve ser discreto e voltado para Deus, não para a vaidade.
As Regras da Igreja (Direito Canônico)
Qual a diferença entre Jejum e Abstinência?
Muitos confundem os dois termos, mas eles são distintos:
- Jejum: Refere-se à quantidade de comida. A regra clássica da Igreja permite uma refeição completa durante o dia, mais dois pequenos lanches que, juntos, não formem uma refeição completa.
- Abstinência: Refere-se à qualidade da comida. Especificamente, proíbe-se o consumo de carne (de animais de sangue quente: boi, frango, porco, etc.). Peixe, ovos e laticínios são permitidos.
Quais são os dias obrigatórios?
Segundo o Código de Direito Canônico, existem dois dias no ano em que o jejum e a abstinência são obrigatórios para a Igreja Universal:
- Quarta-feira de Cinzas (início da Quaresma).
- Sexta-feira Santa (memória da Paixão e Morte do Senhor).
Nota: Nas outras sextas-feiras da Quaresma, a Igreja pede a abstinência de carne, embora as Conferências Episcopais locais (como a CNBB no Brasil) possam permitir a substituição da abstinência por outras obras de piedade ou caridade, exceto na Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa.
Quem está obrigado a jejuar?
A Igreja estabelece faixas etárias para proteger a saúde dos fiéis, mas convida todos à penitência de alguma forma:
- Abstinência de carne: Obrigatória a partir dos 14 anos completos até o fim da vida.
- Jejum: Obrigatório para pessoas entre 18 e 59 anos completos.
Importante: Doentes, grávidas, lactantes, trabalhadores braçais pesados ou pessoas com restrições alimentares médicas estão dispensados do rigor do jejum, devendo substituí-lo por outra penitência.
O Sentido Espiritual e Pastoral
Para que serve o jejum? (Os 3 Fins)
O jejum não é um fim em si mesmo, mas um meio para atingir três objetivos espirituais:
- Domínio de si: Ajuda a controlar as paixões e os instintos desordenados. Se consigo dizer “não” à comida que é lícita, estarei mais forte para dizer “não” ao pecado que é ilícito.
- Elevação da mente: Um corpo menos pesado facilita a oração e a vigilância espiritual.
- Caridade e Solidariedade: O que economizamos com o jejum não deve ser guardado, mas dado aos pobres. O jejum cristão deve sempre resultar em caridade (esmola).
O jejum que agrada a Deus (Visão Profética)
O profeta Isaías (Is 58, 6-7) alerta sobre o jejum vazio. O jejum que agrada a Deus é aquele acompanhado de justiça:
“O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos… repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo.”
Existem outros tipos de jejum além da comida?
Sim. Especialmente no mundo moderno, a Igreja incentiva formas de penitência que toquem no nosso comportamento. O Papa Francisco frequentemente nos lembrava que devemos jejuar de:
- Palavras ofensivas e fofocas.
- Descontentamento e pessimismo.
- Egoísmo e indiferença.
- Uso excessivo de telas e redes sociais.
Como viver isso hoje?
O jejum na Quaresma é um convite à liberdade. Somos escravos de muitos confortos, e o jejum nos lembra que “nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mateus 4,4).
Resumo prático para o fiel:
- Cumpra o preceito na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa.
- Escolha uma penitência pessoal para toda a Quaresma (ex: tirar o doce, o refrigerante ou o álcool).
- Transforme o sacrifício em oração: sempre que sentir fome ou vontade, ofereça isso por uma intenção (pela conversão dos pecadores, pelas almas do purgatório, etc.).